terça-feira, 16 de abril de 2013
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Olha, só... Em áudio, uma entrevista que o Oscar D'Ambrósio fez comigo para a Rádio Unesp, sobre meu livro.
http://podcast.unesp.br/ perfil-16012013-tiago-savio- entrevista-1641
http://podcast.unesp.br/
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Lançamento em Araraquara
E dia 12/01 às 20h, na Casa Lima (av. José Bonifácio, 1487, Araraquara/SP) tem o lançamento do livro em Araraquara!
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
O Primeiro capítulo: O Fim
A menina, caída no asfalto em vermelho escuro e preto, é feia. Está viva, toda machucada, mas esse cabelo nunca deve ter visto um xampu decente. É uma mendiga, mesmo assim vou ajudá-la.
O homem, o que estava passando na calçada, pega-a nos braços, parece uma escultura envolta em tecido. Pede, seu olhar gritando como se ela fosse alguém importante, que os leve ao hospital. Ele estava só passando, não entendo como pode ter se afeiçoado a ela tão rápido.
Entra no banco de trás, quase chorando, a boneca de pano no colo. Sangra pouco, talvez não manche o carro. Diz que se chama Gabriel, estava voltando do trabalho. Digo que me chamo Patrícia, vinda do cemitério.
Não falo mais, não quero intimidades com essas pessoas, nem quero pensar no dia. A leitura do testamento de papai, aquele escritório com quadros baratos, a ráfia óbvia e empoeirada no canto, a escrivaninha tentando parecer antiga, o gordo suado em seu terno barato, lendo um papel.
Uma história estúpida sobre um bebê e sua mãe biológica que morreu. Ela cozinhava no casarão em que sempre vivi, sua patroa nunca conseguiu engravidar.
Meus pais nunca contaram nada, guardaram esse segredo de sua única filha. Por trinta e cinco verões na praia, trinta e cinco árvores de Natal, trinta e cinco festas, bolos, brigadeiros, enormes cenários, vazios. Mentiras em vermelho escuro e preto. A filha da cozinheira não sou eu, ela nem se chamava Patrícia. Meus pais, eles me amavam, nunca fariam isso comigo.
Eles não eram meus pais, o advogado provou. Mostrou os documentos, assinados, carimbados, com selo oficial. Um caminhão, naquele momento, passou por cima de mim.
E agora, como se meu sofrimento nunca fosse suficiente, um outro passou por cima desta garotinha na rua.
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fiquei um montão de tempo procurando a jenifer em tudo que foi canto nos bancos no mato nas árvores na calçada do outro lado de lá na caçamba de lixo nada de nada de nada daquela bunda suja dela aparecer... nem posso ir ali conseguir um cigarro que essa menina se escafede desse jeito some desaparece desse jeito depois vem falando que correram atrás que o cara lá que dorme no outro canto da praça fica querendo pegar nela... menina sem juízo fica provocando fica querendo mostrar tudo por aí mostrar tudo homem sempre quer pegar mesmo tem que ficar longe esconder colocar cobertor por cima casaco chapéu papelão saco plástico... agora vem essa moça da prefeitura toda cheia de cheiro toda chamando eu de dona débora dona débora dona débora fala que atropelaram a menina... acha... a minha jenifer é esperta acostumada a ficar no sinal vende bolacha bala chiclete brigadeiro chiclete bala vende o que for corre de malandro de polícia ela sabe fazer de tudo que fui eu que ensinei não ia dar bobeira no meio da rua não não ia mesmo não dava bobeira assim não... mentira isso mentira mentira tudo vocês querem tirar ela de mim querem ficar com ela alugar pra gringo fazer programa com ela que eu sei sei sim sei muito bem... a moça me leva pro hospital tem uma outra moça lá que viu a jenifer correr na frente do caminhão que tinha um cara correndo atrás dela... pergunta se preciso de alguma coisa fica fazendo que se importa com a gente... olha moça preciso sim preciso é de tudo nessa vida que não tenho nada nada de nada... se a senhora tiver dá umas moedas pra comprar uma coisa pra menina comer depois ela vai ter fome...
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Declaro o óbito. A garota faleceu em minha mesa cirúrgica. Seus pés aparecem sob o lençol, mortos, algumas mechas de cabelo pendem da mesa, amontoados de proteínas saindo de folículos pilosos que não recebem mais irrigação. Nenhuma de suas células tinha chances reais de sobrevivência, mas somos sempre obrigados a tentar. Tentei tanto com Irene, mas agora o divórcio, agora a distância, com certeza, é a melhor chance que temos de nossos órgãos continuarem funcionando.
A menina deu entrada na noite de ontem, pouco nela ainda funcionava. Chegou nos braços de um rapaz de cavanhaque, acompanhado por uma mulher. Fora atropelada.
Lacerações, hemorragias, traumatismos.
Nosso casamento sofria convulsões, não éramos capazes de perceber. Depois de tudo o que houve no ano passado, a dor, a perda, foi muito difícil, mas decidi tentar novamente. Ela dizia que me amava, eu imaginava ainda ter algo parecido com amor correndo em meus vasos.
Não havia salvação.
A pulsação parou enquanto eu suturava o estômago. A menina perdera muito sangue, estava fraca. Tentei reanimá-la, mas o coração demorou a reagir, houve morte cerebral.
Meu coração por vezes é também mais lento que meu cérebro: penso em dezenas de coisas enquanto sinto uma ou duas. Levei esse tempo todo para perceber que meus sentimentos por Irene não eram mais fortes o suficiente para continuarmos juntos.
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Veio correndo. A menina. Que nem galinha fugindo de raposa. Entrou na frente do caminhão. Não deu pra desviar.
Levaram pro hospital. A menina. A cabeça queria fugir. Só que lembrou. Das minhas menina. Se fizessem com elas. Os polícia vieram. Contei tudo. Levantaram minha ficha. Trouxeram eu pra delegacia.
Sempre vão tratar eu que nem bandido. Os porco filho dumas cadela do mato. Algemaram eu. Largaram eu numa sala fedendo mijo. Gritei. Queria água. Não aguentava de sede. Ninguém respondeu. Depois entraram. Dois polícia. A cabeça esquentou. Achou que iam encher eu de porrada. Daqui até a semana que vem. As mão já tava pronta pra bater também. Que não sou frouxo palhaço não. Falaram. Os polícia. Tinha testemunha. Não tive culpa. Soltaram eu.
Fala. Um outro polícia. Morreu. A menina. Tá no hospital. Devia ir ver. A menina. É perto daqui. Vai demorar pra liberar o caminhão. Vou.
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Vou à cozinha, abro a geladeira, procuro algo, talvez o Gabriel, fecho. Confiro o celular, ele ainda não retornou nenhuma das ligações. Deve ter acabado a bateria, João, ele está bem. Não, ele carregou de manhã, não foi isso. Guardo alguns livros na prateleira, checo o celular, ligo a tv, desligo, olho o celular mais uma vez. Descansa um pouco, menino. Não consigo. Bebe alguma coisa pra relaxar. Um uísque. Não, pode ter acontecido alguma coisa, preciso esperar.
Perdemos as contas já de quantas vezes você repetiu que não sabe o que pode ter ocorrido, João. O telefone finalmente toca. Aconteceu alguma coisa com ele? Está chorando. Só consigo entender que alguém morreu. Morte, terror, alguém da família, amigo, nós morremos? Sua tristeza é meu calvário, preciso protegê-lo. Quem morreu, conta com calma. Que menina é essa? Uma que ele acudiu na rua, não conhecia, a gente também não. Não fica assim, amor, eu vou aí.
Chegando ao hospital, encontro o Sandro Rossi. Conta que atropelou a criança, foi um acidente, não foi sua culpa. Instintivamente penso em confortá-lo. João, o Gabriel está ali, chorando. Vai já até ele, menino. Corro abraçá-lo. O Sandro vai procurar a mãe da menina.
Eu vejo quando ele chega perto. Ela tem uma faca na mão. Segura, grita, ela tem uma faca, vai matar, João, corre. Percebo antes dele o que ela pretende. Grito, mas minha voz também está em câmera lenta. Ela o acerta algumas vezes antes que Gabriel e eu consigamos segurá-la.
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achei que eles iam ajudar eu com o salafrário filho da puta puta da puta... esses veados desgraçados vieram foi segurar eu pra ele bater em mim nem depois dele matar minha filha alguém ajuda eu eles tem tudo o coração é na sola do pé que não quer saber de ajudar... larga larga larga eu larga foi ele que matou a minha jenifer tenho que acabar com o infeliz que é o que ele merece vou fazer o que ele fez com ela que já tirou tudo que eu tinha agora vem aqui... eles arrancam a faca da minha mão o outro ali no chão fica fingindo que machucou fingindo que tá sangrando que as tripas dele tão escorrendo pelo chão... segura ele não eu ele é que é o satanás veio levar eu também deixa terminar com ele larga larga devolve minha faca devolve minha filha pra mim que ela é minha preciso dela de volta comigo a faca devolve a filha... o outro moço mostrou ela ficou toda estropiada torta fodida... pedi pra levantar mas ela não mexeu mais ela não mexe morreu morreu não mexe morreu...
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Encaminháva-me já para a saída quando fui chamado a voltar. Apareceu um caso de emergência, o próximo plantonista está atrasado. Preciso ser rápido, combinei com Irene de ela passar em casa pegar algumas de suas coisas: seus livros, a torradeira, ela não consegue acordar sem torradas, algumas roupas que usa menos, um de seus braços que encontrei no fundo do armário ou algo assim. Coitada, está tão abalada.
O coração perfurado. Lacerações múltiplas no torso e cabeça, sangramentos, perda de funções. É um homem forte, pouco mais velho que eu, tem muitas cicatrizes pelo corpo. Uma das facadas foi próxima ao olho direito, pode estar comprometido. Minha prioridade é mantê-lo vivo, mas preciso tentar fazer com que continue a enxergar.
O que não foi possível com Irene. Ela se recusava a ver o que ocorria. Fechava os olhos para tudo que infectava nosso relacionamento: o amargor que transformava cada palavra minha em uma lâmina direcionada a ela, a paranoia que tomara meus órgãos sensoriais, fazia com que percebesse qualquer de seus atos como mais uma traição, a tristeza que crescia sobre nossa cama e afastava cada vez mais nossos corpos. Passei a vigiá-la o tempo todo. Não encontrei mais nada, mas nosso relacionamento não tinha chance de sobreviver.
O paciente, ao contrário, tem. Consegui costurar o pericárdio. Reconstruir a artéria rompida. Estancar as hemorragias. O olho vai ficar bom, nenhum órgão ficou comprometido. Perfeito, pode compensar a perda da garota em meu currículo.
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Entro no casarão quase desabando, preciso de tempo para reconstruir. Fui adotada, a mendiga morreu, apesar de tudo que fiz, preciso do James, meu marido. Ele espera, deitado na cama de meus pais, que nunca se deitaram ali, não eram aqueles os pais, não os meus. O quarto é tão antiquado, vou trocar os móveis, com certeza. Um quadro naquela parede, aquele Smithson que vi outro dia seria ótimo.
Depois da leitura do testamento, à tarde, nem tinha mais como chorar, tão deprimida. Saí daqui, fui ao cemitério conversar com o túmulo dos dois, tentar entender o que era essa palhaçada que fizeram comigo, se faziam algum sentido as besteiras que diziam. Nunca disseram na verdade, o papai deixou escrito numa porcaria de papel, sem explicações ou desculpas. Como se bastasse fechar os olhos, dizer que não fazia diferença porque eles me amaram, fizeram tudo por mim. Não foi tudo, não mesmo, foi quase tudo menos uma coisa.
Deito nos braços dele, conto o que anda em mim. James ouve, abraça, fala que o Martin, nosso bebê, dormiu, está tranquilo, bem. Nossa vida vai ficar bem de novo, logo.
Quase acredito nas bobagens que ele diz. Vamos ao outro quarto. Martin acabou de acordar, como se nada tivesse virado o mundo do avesso. Pego-o no colo, fingindo ainda ser sua mãe. Deve ter fome, entrego-lhe o seio esquerdo. Sem dúvida estão um pouco caídos meus seios, mas logo termina essa droga de amamentação e vou poder fazer a cirurgia corretiva. Se não soubesse que poderia corrigir tudo depois, jamais teria engravidado.
Não sei como viver com tantas questões em aberto, todos os dias agora serão de menina atropelada, por notícias, caminhões, seios caídos? Por que nunca contaram, eu era atropelada, morria no hospital, sem mãe, sem ninguém?
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Os policiais nos pediram para acompanhá-los à delegacia. Gabriel está arrasado, precisando de mim. Abrace-o, dê colo, ele precisa de você. Não aqui, não consigo aqui, muita gente me conhece. Dói vê-lo triste assim, sei que posso e quero abraçá-lo, mas meus braços não são fortes o suficiente, apenas pouso a mão em seu ombro. Ele precisa de carinho, João.
O policial nos chama. Conto que não vi de onde ela tirou a faca. Não prestei atenção se carregava uma bolsa em meio a toda aquela angústia e desespero. Conto que me pareceu familiar, mas não consegui lembrar como a conhecia, talvez da igreja, de alguma instituição, talvez da rua. Encontrava muita gente em meu antigo trabalho. Conto que conhecia o Sandro da adolescência, mas não o via há muito tempo.
Finalmente eles nos liberam e voltamos para casa. Entramos e sentamos na sala. Gabriel deita a cabeça em meu colo, chora. Choro junto com ele. Talvez eu chore pelo quanto é feio que uma criança morra, talvez pela torpeza que é essa situação: alguém que nunca teve quase nada e ainda assim perdeu tudo. Nada disso, João. Você chora porque não pode conter a alegria de ter o Gabriel assim, tão frágil e belo e seu, sobre suas pernas. Chora por poder passar por isso, sentir ele, o alívio, a dor, a verdade, a vida de verdade, sua. Exatamente o que imaginamos que jamais teríamos.
Junto as mãos no peito, agradeço a Deus por ter me deixado escolher esse caminho.
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Cacete de um caralho da porra. Que merda aconteceu? O olho abre. Tô num quarto estranho. Tudo branco. Umas cortina meio boiola. Ela tá sentada do lado. A Sonia.
Fala. A Sonia. Uma maluca esfaqueou eu. Fiquei feito bode estripado com faca cega. A cirurgia foi bem. Quase fui pro saco. Agora não tem mais perigo. Quando contaram pra ela. Pra Sonia. Deixou as menina. Com a mãe da Sonia. Pediu pra ele trazer ela. O irmão da Sonia. Elas mandaram beijo. As menina. Falou pra ela cuidar de eu. A menina mais nova. Ia ficar rezando. Pra sarar logo o dodói do pai.
Pelo menos alguma coisa ainda presta. As menina. A Sonia.
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Volto para casa. Irene está em seu carro, parada em frente à porta de entrada. Aproximo-me, está chorando. Peço desculpas pelo atraso. Ela me fita com olhos intumescidos de ódio, diz que está acostumada com minha falta de consideração para com ela, veneno sai de seus lábios, sobe em meu peito, machuca ainda um pouco. Não entendo a razão de toda essa raiva a mim dirigida nos últimos tempos. Ela não aceita argumentos, racionalidade ou ofertas de paz.
Sussurra de forma quase ininteligível que precisa ir. Peço que espere um minuto, vou pegar as caixas que estão separadas. Ela sai antes que eu tenha voltado. Não sei o que fazer.
Acho que só posso esperar. O tempo vai adiante, quem sabe as pessoas também, até Irene pode ir. Acho que só precisa se acostumar com um pouco de solidão em seu corpo: no joelho direito, nas ilhotas de Langerhan, talvez em uma das orelhas, ou mesmo em seu coração. Precisa se acostumar com a ausência de quem éramos juntos.
E com o fim.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
João, que perdeu seu coração
Meu coração às vezes tá na minha boca e às vezes nos seus pés.
Umas vezes meu coração parece que tá no inferno e outras parece que tá na Bahia.
Meu coração às vezes pula, depois rola e se finge de morto.
Às vezes ele até explode, mas nada disso te traz de volta e ele desiste...
Umas vezes meu coração parece que tá no inferno e outras parece que tá na Bahia.
Meu coração às vezes pula, depois rola e se finge de morto.
Às vezes ele até explode, mas nada disso te traz de volta e ele desiste...
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Pudim light de elefante com maçãs
• 2 latas de leite condensado
• 3 ovos
• 1 colher e meia de margarina light
• 2 meninos correndo atrás da bola
• 400 ml de lembranças tristes
• 1 copo e meio de leite
• 4 maçãs (podem ser substituídas por 2 Brancas de Neve)
• 1 elefante graúdo
Modo de fazer:
1. bata os ovos com o leite condensado e vá adicionando lentamente as lembranças tristes, até que elas desapareçam por completo na mistura e que você nem saiba mais sobre o que se tratava. Reserve;
2. dê as maças aos meninos, duas para cada um. Caso decida substituí-las palas Brancas de Neve, não se esqueça de fornecer preservativos. Assim que eles esquecerem das bolas que perseguiam, junte-as suavemente ao leite e à margarina light;
3. coloque numa forma untada a primeira mistura, o elefante, e por fim, a segunda;
4. leve ao forno pré aquecido por cerca de 1 hora.
Sirva quente.
• 3 ovos
• 1 colher e meia de margarina light
• 2 meninos correndo atrás da bola
• 400 ml de lembranças tristes
• 1 copo e meio de leite
• 4 maçãs (podem ser substituídas por 2 Brancas de Neve)
• 1 elefante graúdo
Modo de fazer:
1. bata os ovos com o leite condensado e vá adicionando lentamente as lembranças tristes, até que elas desapareçam por completo na mistura e que você nem saiba mais sobre o que se tratava. Reserve;
2. dê as maças aos meninos, duas para cada um. Caso decida substituí-las palas Brancas de Neve, não se esqueça de fornecer preservativos. Assim que eles esquecerem das bolas que perseguiam, junte-as suavemente ao leite e à margarina light;
3. coloque numa forma untada a primeira mistura, o elefante, e por fim, a segunda;
4. leve ao forno pré aquecido por cerca de 1 hora.
Sirva quente.
sábado, 17 de outubro de 2009
A Luz dos Olhos Teus
Ela fitou friamente seus olhos e disse: conjuntivite. Receitou uma pomada e uns dias de repouso. Não, não ali em sua sala. E muito menos em sua cama, ela nem o conhecia, Você poderia se retirar, por favor?
Ele não podia. Não enxergava um palmo à frente de seu nariz, com aquele inchaço todo. Tentou se levantar, mas trombou com o Palmo, que estava realmente próximo de seu rosto. A médica levou-o até a sala de espera.
Jonas não era um rebelde, mas mesmo estando ali não poderia esperar, era o último dia para comprar ingressos para o show de sua deusa: “Zoroástrea Glamour em única apresentação ao vivo e aos outros dois espectadores”. Tinha que correr.
Pediu um táxi e uns rolinhos primavera. Chegaram frios. A recepcionista ajudou-o a subir no carro. O taxista reclamou que poderia amassar o teto, fez com que descesse e colocou-o para dentro.
Ele deu o endereço, mas o motorista recusou-se a ir a um lugar daqueles. Era um táxi de família e não topava aquele tipo de perversão. Saiu.
Sua visão estava começando a melhorar e decidiu pegar um ônibus. A linha Lapa-Cracatoa? Passa aqui sim, meu filho. Pode deixar que eu aviso quando chegar, disse a velhinha pegando em seu braço e em muitos outros lugares que ele não entendeu direito.
Entrou no ônibus e perguntou se aquele carro iria até seu destino. O motorista pegou um baralho do bolso da calça, tirou três cartas e as colocou à sua frente. Sim, aquele era seu destino.
Logo o cobrador avisou que tinham chegado a seu ponto. Ele pediu para chamar novamente quando passassem por sua vírgula, e desceu ali. Sabia que o boteco onde seria o show era perto.
Perto numa escala cósmica, no caso. Foi apalpando seu caminho e perguntou a vários vultos que passavam, mas as indicações eram contraditórias: é logo ali, vire à direita, à esquerda, suba no poste, dê dois pulinhos num pé só, vai pro inferno. Não, isso estava errado, a apresentação no inferno tinha sido na semana anterior.
Por fim, encontrou uma alma caridosa que o levou até a bilheteria e assombrou-o só um pouco, generosamente. Pediu dois ingressos.
– Bem passados, por favor – e voltou caminhando para casa.
Ele não podia. Não enxergava um palmo à frente de seu nariz, com aquele inchaço todo. Tentou se levantar, mas trombou com o Palmo, que estava realmente próximo de seu rosto. A médica levou-o até a sala de espera.
Jonas não era um rebelde, mas mesmo estando ali não poderia esperar, era o último dia para comprar ingressos para o show de sua deusa: “Zoroástrea Glamour em única apresentação ao vivo e aos outros dois espectadores”. Tinha que correr.
Pediu um táxi e uns rolinhos primavera. Chegaram frios. A recepcionista ajudou-o a subir no carro. O taxista reclamou que poderia amassar o teto, fez com que descesse e colocou-o para dentro.
Ele deu o endereço, mas o motorista recusou-se a ir a um lugar daqueles. Era um táxi de família e não topava aquele tipo de perversão. Saiu.
Sua visão estava começando a melhorar e decidiu pegar um ônibus. A linha Lapa-Cracatoa? Passa aqui sim, meu filho. Pode deixar que eu aviso quando chegar, disse a velhinha pegando em seu braço e em muitos outros lugares que ele não entendeu direito.
Entrou no ônibus e perguntou se aquele carro iria até seu destino. O motorista pegou um baralho do bolso da calça, tirou três cartas e as colocou à sua frente. Sim, aquele era seu destino.
Logo o cobrador avisou que tinham chegado a seu ponto. Ele pediu para chamar novamente quando passassem por sua vírgula, e desceu ali. Sabia que o boteco onde seria o show era perto.
Perto numa escala cósmica, no caso. Foi apalpando seu caminho e perguntou a vários vultos que passavam, mas as indicações eram contraditórias: é logo ali, vire à direita, à esquerda, suba no poste, dê dois pulinhos num pé só, vai pro inferno. Não, isso estava errado, a apresentação no inferno tinha sido na semana anterior.
Por fim, encontrou uma alma caridosa que o levou até a bilheteria e assombrou-o só um pouco, generosamente. Pediu dois ingressos.
– Bem passados, por favor – e voltou caminhando para casa.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Quando fui premiado pelo conjunto de minha obra
Eram sirenes, tambores, trompetes. Eram janelas que batiam e portas que fechavam. Eram trovões e corações em disparada. Passos e pontapés, chutes e traições. Era demência e covardia.
Ouvi tiros, respingos, sussurros. Ouvi gritos e maldições. Juras de morte, preces, ouvi gemidos e clamores por um fim rápido e menos doloroso.
E estava cada vez mais próximo.
Eles procuravam o autor da história do rapaz da lanchonete, o pai da Zoroástrea e do monstro atrás da porta. Pretendiam me destruir, apagar o que escrevi, queimar minhas memórias e expor o meu cadáver.
Meus livros seriam torturados, meus contos açoitados, minhas palavras amordaçadas, minhas letras estranguladas.
Tentei fingir que era uma metáfora, tentei elipsar-me, mentir, desdizer, por fim corri. A multidão vinha e eu seria desfeito, não há perdão para quem contou tudo, sentiu o que não devia, falou o que ninguém poderia saber. Os erros de lógica, de métrica, de ritmo. O cinismo, a inverossimilhança, os clichês, a pretensão: não há clemência para quem é diferente de todos nós.
E eles me alcançaram.
Ouvi tiros, respingos, sussurros. Ouvi gritos e maldições. Juras de morte, preces, ouvi gemidos e clamores por um fim rápido e menos doloroso.
E estava cada vez mais próximo.
Eles procuravam o autor da história do rapaz da lanchonete, o pai da Zoroástrea e do monstro atrás da porta. Pretendiam me destruir, apagar o que escrevi, queimar minhas memórias e expor o meu cadáver.
Meus livros seriam torturados, meus contos açoitados, minhas palavras amordaçadas, minhas letras estranguladas.
Tentei fingir que era uma metáfora, tentei elipsar-me, mentir, desdizer, por fim corri. A multidão vinha e eu seria desfeito, não há perdão para quem contou tudo, sentiu o que não devia, falou o que ninguém poderia saber. Os erros de lógica, de métrica, de ritmo. O cinismo, a inverossimilhança, os clichês, a pretensão: não há clemência para quem é diferente de todos nós.
E eles me alcançaram.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
A melhor noite de sua vida
Vou dormir essa noite em sua cama. Sei que você não quer, mas não me importo. Já tive muitas companhias que não me desejavam. Eu gosto.
Talvez até prefira assim.
Tocarei a campainha. Você vai me ver pelo olho mágico e decidir não abrir. Mas a porta será aberta por suas mãos. Você ainda poderia tentar fechá-la, mas não vai. Você sabe disso.
Quando eu tomá-la em meus braços, você vai lutar como se fosse por sua vida. Eu não insistirei, vou soltá-la e virar as costas. Vou esperar que implore pelo meu olhar. Dependendo do meu humor, posso lhe dar um sorriso ou algum outro regalo, só para que se lembre o quanto precisa de cada migalha do que lhe jogo.
Ou vou cuspir em seu rosto, não sei.
Vou prometer amá-la por toda sua vida. Vou dizer que mudei - ou que vou mudar, não importa. Vou repetir todas as mentiras de sempre. E você vai acreditar, mesmo sabendo que eu a odeio e quero que você morra.
Depois vou chutá-la para um canto e mandar que suma para sempre. Mas você não vai: vai lamber meus pés e pedir um afago, enquanto se prepara para os tapas que virão.
Quando nos deitarmos, você estará quebrada. Sem desejo que não sejam os meus. Você não terá dignidade ou razão. Vai antecipar cada uma de minhas vontades e satisfazê-las de imediato.
E eu, resignada, aceitarei.
Talvez até prefira assim.
Tocarei a campainha. Você vai me ver pelo olho mágico e decidir não abrir. Mas a porta será aberta por suas mãos. Você ainda poderia tentar fechá-la, mas não vai. Você sabe disso.
Quando eu tomá-la em meus braços, você vai lutar como se fosse por sua vida. Eu não insistirei, vou soltá-la e virar as costas. Vou esperar que implore pelo meu olhar. Dependendo do meu humor, posso lhe dar um sorriso ou algum outro regalo, só para que se lembre o quanto precisa de cada migalha do que lhe jogo.
Ou vou cuspir em seu rosto, não sei.
Vou prometer amá-la por toda sua vida. Vou dizer que mudei - ou que vou mudar, não importa. Vou repetir todas as mentiras de sempre. E você vai acreditar, mesmo sabendo que eu a odeio e quero que você morra.
Depois vou chutá-la para um canto e mandar que suma para sempre. Mas você não vai: vai lamber meus pés e pedir um afago, enquanto se prepara para os tapas que virão.
Quando nos deitarmos, você estará quebrada. Sem desejo que não sejam os meus. Você não terá dignidade ou razão. Vai antecipar cada uma de minhas vontades e satisfazê-las de imediato.
E eu, resignada, aceitarei.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Novo Testamento
Eu corria pela estrada de terra quase virando barro. Eu e a estrada. Meus pés limpos na lama, o dia quente, a chuva forte tentando furar minha pele. Meus braços contentes, o peito arfando, os pastos, as árvores, a vaca mocha que ainda tentava entender o que era aquele paletó enroscado na cerca que era o limite de seu mundo.
Eu ria e as gotas escorriam pelo meu rosto como lágrimas de uma felicidade que sempre esteve ali. Ao meu alcance e que eu jamais pude ver, através da cerca que me limitava: o medo, o amparo, a felicidade, a culpa e o perdão, todos os meus arames farpados.
Eu corria e deixava para trás tudo aquilo. O que ganhei, o que comprei, o que pedi. O que roubei. Os frutos de meu trabalho, de meu ventre, de minha sorte ou maldade. Deixava tudo: o escritório, a camisa, as calças, a vergonha.
Corria nu. O pudor eu tinha jogado junto com a pasta de documentos, assim que terminei de ler o testamento. Tudo que eu via agora era meu: a estrada, as vacas, as cercas, a vergonha, o mundo todo.
E Deus tinha assinado embaixo.
Eu ria e as gotas escorriam pelo meu rosto como lágrimas de uma felicidade que sempre esteve ali. Ao meu alcance e que eu jamais pude ver, através da cerca que me limitava: o medo, o amparo, a felicidade, a culpa e o perdão, todos os meus arames farpados.
Eu corria e deixava para trás tudo aquilo. O que ganhei, o que comprei, o que pedi. O que roubei. Os frutos de meu trabalho, de meu ventre, de minha sorte ou maldade. Deixava tudo: o escritório, a camisa, as calças, a vergonha.
Corria nu. O pudor eu tinha jogado junto com a pasta de documentos, assim que terminei de ler o testamento. Tudo que eu via agora era meu: a estrada, as vacas, as cercas, a vergonha, o mundo todo.
E Deus tinha assinado embaixo.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Sua casa e seu navio
E atrás da última porta só pode estar o monstro.
Ele é belo, mas destrói todos os sonhos em que toca. Vai mudar seu passado, perverter tudo de bom que já lhe aconteceu. Poderia matá-lo ainda bebê, mas prefere que você passe por cada tormento, cada humilhação: a espinha no dia do baile e as traições de todos que amar.
E em frente à última porta fica o medo do monstro, como um vigia.
O medo do monstro que o persegue desde criança. Que o fez hesitar em todos os seus fracassos e perder todas as oportunidades da sua vida. O medo que você carrega nos ombros como um mundo.
O medo que é sua casa e seu navio.
Quando você chegar à última porta, você olhará para trás, mas o caminho não estará lá. Nunca esteve. Você vai se perder antes de chegar. Vai perder tudo.
O caminho que leva à última porta é papel e se desfaz sob seus passos molhados.
Quando você chegar à última porta, abrir ou não abrir será irrelevante. Você verá o vigia e ele não se importará com sua presença, talvez até o convide a experimentar a maçaneta. Quando você chegar à última porta, você estará do outro lado dela.
Você será belo, mas vai destruir todos os sonhos em que tocar.
Ele é belo, mas destrói todos os sonhos em que toca. Vai mudar seu passado, perverter tudo de bom que já lhe aconteceu. Poderia matá-lo ainda bebê, mas prefere que você passe por cada tormento, cada humilhação: a espinha no dia do baile e as traições de todos que amar.
E em frente à última porta fica o medo do monstro, como um vigia.
O medo do monstro que o persegue desde criança. Que o fez hesitar em todos os seus fracassos e perder todas as oportunidades da sua vida. O medo que você carrega nos ombros como um mundo.
O medo que é sua casa e seu navio.
Quando você chegar à última porta, você olhará para trás, mas o caminho não estará lá. Nunca esteve. Você vai se perder antes de chegar. Vai perder tudo.
O caminho que leva à última porta é papel e se desfaz sob seus passos molhados.
Quando você chegar à última porta, abrir ou não abrir será irrelevante. Você verá o vigia e ele não se importará com sua presença, talvez até o convide a experimentar a maçaneta. Quando você chegar à última porta, você estará do outro lado dela.
Você será belo, mas vai destruir todos os sonhos em que tocar.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 8
Usando suas habilidades ninja-mutante-tartaruga-etc, Tiago rapidamente prendeu Morgana Bruna em sua própria teia de mentiras e aço inoxidável coberto com passas ao rum. Sem nem mudar de parágrafo, desarmou os bandidos todos e libertou seus amigos. Que, aliás, não eram seus amigos coisa nenhuma. Zoroástrea aplicou-lhe uma cabelada de loira de esquerda que o derrubou ao mesmo tempo em que o mantinha imobilizado.
- Mas Zorô, eu não entendo. Por que você fez isso? Eu sou praticamente seu pai, e você nunca fez a linha Édipo-power-retrô.
- Nada disso, seu vilipendioso monte de ego e músculos e beleza estonteante! Você sabe muito bem o que me fez: você roubou meu penhoar e, isso, eu não posso perdoar.
- Penhoar? Que penhoar, minha pequena Zoroástrea das montanhas escaldantes?
Ela se referia, é claro, ao penhoar do título. Desde a morte de sua mãe, Ronalda Raimunda, feia de cara e boa de bola, ela esperava a oportunidade de brilhar na túnica que tanto atormentou sua infância e que ainda povoava seus sonhos, como um ícone de tudo que nunca poderia ter. E ela sabia que sua herança havia sido negada por seu criador.
- Minha Zorozinha... Era só um título de efeito. Nunca existiu penhoar nenhum - suplicava Tiago, com o pouco fôlego que ainda lhe restava, já entorpecido pela nuvem de laquê que emanava das madeixas loiras.
Não. Ela sabia que o penhoar existia. Ela se lembrava de cada dobra daquela seda suave, dos movimentos do tecido enquanto sua mãe corria pelos campos de papoulas, nua sob as estampas do Frajola enfrentando o Fofão. E ela precisava tê-lo.
- Zorô... me perdoe... O penhoar... o penhoar está... - disse Tiago, e deu seu último suspiro.
Zoroástrea, sem hesitar um só momento, comeu o suspiro, que estava já um pouco murcho, e aproximou-se de seu criador, para ouvir com atenção suas derradeiras palavras.
- Mas Zorô, eu não entendo. Por que você fez isso? Eu sou praticamente seu pai, e você nunca fez a linha Édipo-power-retrô.
- Nada disso, seu vilipendioso monte de ego e músculos e beleza estonteante! Você sabe muito bem o que me fez: você roubou meu penhoar e, isso, eu não posso perdoar.
- Penhoar? Que penhoar, minha pequena Zoroástrea das montanhas escaldantes?
Ela se referia, é claro, ao penhoar do título. Desde a morte de sua mãe, Ronalda Raimunda, feia de cara e boa de bola, ela esperava a oportunidade de brilhar na túnica que tanto atormentou sua infância e que ainda povoava seus sonhos, como um ícone de tudo que nunca poderia ter. E ela sabia que sua herança havia sido negada por seu criador.
- Minha Zorozinha... Era só um título de efeito. Nunca existiu penhoar nenhum - suplicava Tiago, com o pouco fôlego que ainda lhe restava, já entorpecido pela nuvem de laquê que emanava das madeixas loiras.
Não. Ela sabia que o penhoar existia. Ela se lembrava de cada dobra daquela seda suave, dos movimentos do tecido enquanto sua mãe corria pelos campos de papoulas, nua sob as estampas do Frajola enfrentando o Fofão. E ela precisava tê-lo.
- Zorô... me perdoe... O penhoar... o penhoar está... - disse Tiago, e deu seu último suspiro.
Zoroástrea, sem hesitar um só momento, comeu o suspiro, que estava já um pouco murcho, e aproximou-se de seu criador, para ouvir com atenção suas derradeiras palavras.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Ouvi seus passos
Quase acordando, ouvi seus passos:
uma alegria quente e líquida que me sufocava.
A brisa lenta da manhã trazia seu perfume de flor de tudo,
meus lábios dançavam naquele perfume e meus pulmões sorriam.
A pele salivava esperando seu toque,
minhas mãos procurando o lado esquerdo de sua alma.
Quase sorri,
mas acordei para o vazio fúnebre desse quarto que não tem mais cores.
uma alegria quente e líquida que me sufocava.
A brisa lenta da manhã trazia seu perfume de flor de tudo,
meus lábios dançavam naquele perfume e meus pulmões sorriam.
A pele salivava esperando seu toque,
minhas mãos procurando o lado esquerdo de sua alma.
Quase sorri,
mas acordei para o vazio fúnebre desse quarto que não tem mais cores.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 7
Guinevere finalmente abaixou o capuz e mostrou seu rosto: ela era, na verdade, sua irmã gêmea malvada, Morgana Bruna, bruxa má e freira carmelita do oeste. Ninguém percebeu, claro, elas eram idênticas. Mas ela podia provar, tinha o selo do Inmetro. Todos pediram que não mostrasse, podia ter criança lendo a história, e resolveram acreditar em sua palavra.
Seus capangas mal-encarados genéricos invadiram a sala e rapidamente prenderam Zoroástrea, Óbvio e José Manuel, além de uma velhinha que passava na rua e entrou pedindo um pão branquinho e um litro de leite.
Morgana abriu um sorriso de expectativa: finalmente, após todos aqueles meses de treino, iria poder usar sua risada de vilã malvadona! Estava tão empolgada que mal conseguia falar quando começou a explicar seu plano diabólico: trancou a irmã na casa de seu coelho de estimação e se infiltrou naquele grupinho de tietes inúteis para que pudesse prender Zoroástrea e, finalmente, conseguir sua vingança pelas bolinhas de gude que ela havia lhe roubado no acampamento de férias do ano anterior.
E explicou como a torturaria: iria prender Zoroástrea em uma gaiola com fundo de chocolate, sobre um vagão de montanha russa, cercada de gordinhos esfomeados. Quando eles terminassem de comer o chão da gaiola, ela cairia e seria presa pelo vagão, que seria ligado automaticamente e a levaria para uma sala escura onde dois ferrets treinados iriam lamber seus pés sem parar, enquanto o CD dos grandes sucessos de Amado Batista se repetiria no último volume. E soltou sua risada, com perfeição. Todos ficaram atônitos.
O silêncio só foi quebrado pelo som de um jorro rápido e assustador vindo da sala fechada próxima à escada: alguém tinha apertado a descarga. Ainda enxugando as mãos nas calças, Tiago Savio, herói secreto de uma galáxia distante e escritor de blog bobo, entrou na sala.
-Não se eu puder impedir, Morgana Bruna!
Seus capangas mal-encarados genéricos invadiram a sala e rapidamente prenderam Zoroástrea, Óbvio e José Manuel, além de uma velhinha que passava na rua e entrou pedindo um pão branquinho e um litro de leite.
Morgana abriu um sorriso de expectativa: finalmente, após todos aqueles meses de treino, iria poder usar sua risada de vilã malvadona! Estava tão empolgada que mal conseguia falar quando começou a explicar seu plano diabólico: trancou a irmã na casa de seu coelho de estimação e se infiltrou naquele grupinho de tietes inúteis para que pudesse prender Zoroástrea e, finalmente, conseguir sua vingança pelas bolinhas de gude que ela havia lhe roubado no acampamento de férias do ano anterior.
E explicou como a torturaria: iria prender Zoroástrea em uma gaiola com fundo de chocolate, sobre um vagão de montanha russa, cercada de gordinhos esfomeados. Quando eles terminassem de comer o chão da gaiola, ela cairia e seria presa pelo vagão, que seria ligado automaticamente e a levaria para uma sala escura onde dois ferrets treinados iriam lamber seus pés sem parar, enquanto o CD dos grandes sucessos de Amado Batista se repetiria no último volume. E soltou sua risada, com perfeição. Todos ficaram atônitos.
O silêncio só foi quebrado pelo som de um jorro rápido e assustador vindo da sala fechada próxima à escada: alguém tinha apertado a descarga. Ainda enxugando as mãos nas calças, Tiago Savio, herói secreto de uma galáxia distante e escritor de blog bobo, entrou na sala.
-Não se eu puder impedir, Morgana Bruna!
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Profecia
Cheguei na porta do boteco com medo, mas joguei-o do lado de fora e a abri, como quem não tem mais nada a perder. Eu não tinha.
Ele iria me destruir. Estava escrito e ele queria. Deus, quase que eu queria àquelas alturas.
Entrei naquele espaço imundo e abafado, cheirando a cigarro e suor. Trouxe comigo um resto do frio da noite que sumiu antes de a porta fechar.
Ele estava exatamente onde eu o havia deixado.
Caído sobre a mesa, um envelope rasgado às pressas. Ao lado, um pedaço de papel: os resultados do exame, minha sentença de morte.
Ele iria me destruir. Estava escrito e ele queria. Deus, quase que eu queria àquelas alturas.
Entrei naquele espaço imundo e abafado, cheirando a cigarro e suor. Trouxe comigo um resto do frio da noite que sumiu antes de a porta fechar.
Ele estava exatamente onde eu o havia deixado.
Caído sobre a mesa, um envelope rasgado às pressas. Ao lado, um pedaço de papel: os resultados do exame, minha sentença de morte.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
God in a bottle
There is a bottle of Coke. Or there isn’t, I’m not sure.
All the stars in the universe are burning outside the bottle.
Liquid stars, gaseous stars. A really hot bottle would contain them.
Why is there no star but in a bottle of Coke?
There is a bottle of stars. Or there isn’t, I’m not sure.
It is actually a bright and hot bottle.
So hot it could be easily liquified and poured inside a bottle.
Why is there no liquid bottle but in a bottle of stars?
All the stars in the universe are burning outside the bottle.
Liquid stars, gaseous stars. A really hot bottle would contain them.
Why is there no star but in a bottle of Coke?
There is a bottle of stars. Or there isn’t, I’m not sure.
It is actually a bright and hot bottle.
So hot it could be easily liquified and poured inside a bottle.
Why is there no liquid bottle but in a bottle of stars?
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 6
José Manuel Sampaio, administrador agrícola e zé mané, olhou com inveja para a amiga Guinevere dos Santos, rainha adúltera e freira marcelina. Ela estava lhe mostrando sua nova tatuagem: um dragão púrpura com o rosto de Zoroástrea, sob o qual estava escrito Lembrança de Aparecida do Norte.
Alguém batia na porta. Aliás, massacrava a coitada, e eles correram. Não chegaram a tempo: encontraram-na já no chão, nocauteada. No espaço onde ela deveria estar, a figura majestosa de Zoroástrea.
Parecia-lhes uma visão celestial, mas os querubins sentados em seus ombros eram na verdade os enchimentos dos peitos, que haviam se deslocado durante a contenda.
José Manuel rapidamente convidou-a a entrar e perguntou se aceitava um chá, bolinhos, doce de mamão selvagem ou qualquer outra coisa selvagem, enquanto fazia cara de fuinha se afogando no cio e abria o manto para mostrar sua sunguinha enfiada (aquela fantasia realmente era o ápice do design utilitário-überfashion).
Zoroástrea olhou-o um pouco nauseada, ajeitou os peitos no sutiã do Bob Esponja que usava, e aceitou um bolinho. Pegou da bolsa um MP3 Player e colocou pra tocar a fala que tinha gravado com as acusações todas que fez a Óbvio e depois a Teodoro. Estava um pouco rouca e precisava se cuidar. Fotografá-la nua, roubar os dentes da fada, as figurinhas do Amar é..., o pote de balas da tia Samantha, tudo aquilo.
Guinevere sentou-se, o capuz ainda escondendo seu rosto, e pediu-lhe que sentasse também.
O plano finalmente tinha funcionado, tinham conseguido atraí-la até ali. Agora bastava garantir que ela nunca mais saísse.
Alguém batia na porta. Aliás, massacrava a coitada, e eles correram. Não chegaram a tempo: encontraram-na já no chão, nocauteada. No espaço onde ela deveria estar, a figura majestosa de Zoroástrea.
Parecia-lhes uma visão celestial, mas os querubins sentados em seus ombros eram na verdade os enchimentos dos peitos, que haviam se deslocado durante a contenda.
José Manuel rapidamente convidou-a a entrar e perguntou se aceitava um chá, bolinhos, doce de mamão selvagem ou qualquer outra coisa selvagem, enquanto fazia cara de fuinha se afogando no cio e abria o manto para mostrar sua sunguinha enfiada (aquela fantasia realmente era o ápice do design utilitário-überfashion).
Zoroástrea olhou-o um pouco nauseada, ajeitou os peitos no sutiã do Bob Esponja que usava, e aceitou um bolinho. Pegou da bolsa um MP3 Player e colocou pra tocar a fala que tinha gravado com as acusações todas que fez a Óbvio e depois a Teodoro. Estava um pouco rouca e precisava se cuidar. Fotografá-la nua, roubar os dentes da fada, as figurinhas do Amar é..., o pote de balas da tia Samantha, tudo aquilo.
Guinevere sentou-se, o capuz ainda escondendo seu rosto, e pediu-lhe que sentasse também.
O plano finalmente tinha funcionado, tinham conseguido atraí-la até ali. Agora bastava garantir que ela nunca mais saísse.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 5
Teodoro Fontoura, avenida e biotônico nas horas vagas, virou-se para desenroscar a capa, presa na roleta do metrô. Tinha cansado de insistir que deveriam usar algo mais simples, para evitar esse tipo de problema: paetês coloridos, fantasias de Teletubbies ou mesmo que voltassem para a melancia pendurada do uniforme antigo. Mas não. Pra ser uma seita secreta tinham que usar o manto com capuz e pompom, o aperto de mão em código morse e aquela maldita sunga enfiada. Claro.
Quando virou para frente, viu Zoroástrea entrando na estação. Não ligou, estava acostumado com esses delírios, via-a em toda parte, achava que qualquer mulher com mais de 1,90m que encontrava era ela. Esse delírio em particular tinha até a voz de Zoroástrea e, quando ele decidiu ignorá-lo, tinha também o famoso gancho de esquerda de Zoroástrea.
Aproveitou que já estava no chão e beijou seu pé. Ela ofereceu-lhe o outro, gostava do efeito da baba sobre o couro. Esfregou os coturnos em seu pompom para lustrá-los, enquanto Teodoro finalmente entendia a utilidade do acessório, e levantou o infeliz no ar, puxando-o pelo capuz (como era prática aquela fantasia). Exigiu, em gritos garrafais, que ele a levasse até os outros, que explicasse o motivo de tanta perseguição e que devolvesse seu álbum de figurinhas do Amar é...
Seguiram por ruas e becos estreitos, passagens secretas e pastelarias; andaram em círculos, em trapézios, em paralelogramos e anticonstitucionalismos. Depois voltaram tudo e entraram numa casa próxima à estação do metrô, onde se lia na porta: Adoradores de Zoroástrea. CPFL, favor bater no número 213-B.
Quando virou para frente, viu Zoroástrea entrando na estação. Não ligou, estava acostumado com esses delírios, via-a em toda parte, achava que qualquer mulher com mais de 1,90m que encontrava era ela. Esse delírio em particular tinha até a voz de Zoroástrea e, quando ele decidiu ignorá-lo, tinha também o famoso gancho de esquerda de Zoroástrea.
Aproveitou que já estava no chão e beijou seu pé. Ela ofereceu-lhe o outro, gostava do efeito da baba sobre o couro. Esfregou os coturnos em seu pompom para lustrá-los, enquanto Teodoro finalmente entendia a utilidade do acessório, e levantou o infeliz no ar, puxando-o pelo capuz (como era prática aquela fantasia). Exigiu, em gritos garrafais, que ele a levasse até os outros, que explicasse o motivo de tanta perseguição e que devolvesse seu álbum de figurinhas do Amar é...
Seguiram por ruas e becos estreitos, passagens secretas e pastelarias; andaram em círculos, em trapézios, em paralelogramos e anticonstitucionalismos. Depois voltaram tudo e entraram numa casa próxima à estação do metrô, onde se lia na porta: Adoradores de Zoroástrea. CPFL, favor bater no número 213-B.
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