sábado, 17 de outubro de 2009

A Luz dos Olhos Teus

Ela fitou friamente seus olhos e disse: conjuntivite. Receitou uma pomada e uns dias de repouso. Não, não ali em sua sala. E muito menos em sua cama, ela nem o conhecia, Você poderia se retirar, por favor?

Ele não podia. Não enxergava um palmo à frente de seu nariz, com aquele inchaço todo. Tentou se levantar, mas trombou com o Palmo, que estava realmente próximo de seu rosto. A médica levou-o até a sala de espera.

Jonas não era um rebelde, mas mesmo estando ali não poderia esperar, era o último dia para comprar ingressos para o show de sua deusa: “Zoroástrea Glamour em única apresentação ao vivo e aos outros dois espectadores”. Tinha que correr.

Pediu um táxi e uns rolinhos primavera. Chegaram frios. A recepcionista ajudou-o a subir no carro. O taxista reclamou que poderia amassar o teto, fez com que descesse e colocou-o para dentro.

Ele deu o endereço, mas o motorista recusou-se a ir a um lugar daqueles. Era um táxi de família e não topava aquele tipo de perversão. Saiu.

Sua visão estava começando a melhorar e decidiu pegar um ônibus. A linha Lapa-Cracatoa? Passa aqui sim, meu filho. Pode deixar que eu aviso quando chegar, disse a velhinha pegando em seu braço e em muitos outros lugares que ele não entendeu direito.

Entrou no ônibus e perguntou se aquele carro iria até seu destino. O motorista pegou um baralho do bolso da calça, tirou três cartas e as colocou à sua frente. Sim, aquele era seu destino.

Logo o cobrador avisou que tinham chegado a seu ponto. Ele pediu para chamar novamente quando passassem por sua vírgula, e desceu ali. Sabia que o boteco onde seria o show era perto.

Perto numa escala cósmica, no caso. Foi apalpando seu caminho e perguntou a vários vultos que passavam, mas as indicações eram contraditórias: é logo ali, vire à direita, à esquerda, suba no poste, dê dois pulinhos num pé só, vai pro inferno.
Não, isso estava errado, a apresentação no inferno tinha sido na semana anterior.

Por fim, encontrou uma alma caridosa que o levou até a bilheteria e assombrou-o só um pouco, generosamente. Pediu dois ingressos.

– Bem passados, por favor – e voltou caminhando para casa.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Quando fui premiado pelo conjunto de minha obra

Eram sirenes, tambores, trompetes. Eram janelas que batiam e portas que fechavam. Eram trovões e corações em disparada. Passos e pontapés, chutes e traições. Era demência e covardia.

Ouvi tiros, respingos, sussurros. Ouvi gritos e maldições. Juras de morte, preces, ouvi gemidos e clamores por um fim rápido e menos doloroso.

E estava cada vez mais próximo.

Eles procuravam o autor da história do rapaz da lanchonete, o pai da Zoroástrea e do monstro atrás da porta. Pretendiam me destruir, apagar o que escrevi, queimar minhas memórias e expor o meu cadáver.

Meus livros seriam torturados, meus contos açoitados, minhas palavras amordaçadas, minhas letras estranguladas.

Tentei fingir que era uma metáfora, tentei elipsar-me, mentir, desdizer, por fim corri. A multidão vinha e eu seria desfeito, não há perdão para quem contou tudo, sentiu o que não devia, falou o que ninguém poderia saber. Os erros de lógica, de métrica, de ritmo. O cinismo, a inverossimilhança, os clichês, a pretensão: não há clemência para quem é diferente de todos nós.

E eles me alcançaram.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A melhor noite de sua vida

Vou dormir essa noite em sua cama. Sei que você não quer, mas não me importo. Já tive muitas companhias que não me desejavam. Eu gosto.

Talvez até prefira assim.

Tocarei a campainha. Você vai me ver pelo olho mágico e decidir não abrir. Mas a porta será aberta por suas mãos. Você ainda poderia tentar fechá-la, mas não vai. Você sabe disso.

Quando eu tomá-la em meus braços, você vai lutar como se fosse por sua vida. Eu não insistirei, vou soltá-la e virar as costas. Vou esperar que implore pelo meu olhar. Dependendo do meu humor, posso lhe dar um sorriso ou algum outro regalo, só para que se lembre o quanto precisa de cada migalha do que lhe jogo.

Ou vou cuspir em seu rosto, não sei.

Vou prometer amá-la por toda sua vida. Vou dizer que mudei - ou que vou mudar, não importa. Vou repetir todas as mentiras de sempre. E você vai acreditar, mesmo sabendo que eu a odeio e quero que você morra.

Depois vou chutá-la para um canto e mandar que suma para sempre. Mas você não vai: vai lamber meus pés e pedir um afago, enquanto se prepara para os tapas que virão.

Quando nos deitarmos, você estará quebrada. Sem desejo que não sejam os meus. Você não terá dignidade ou razão. Vai antecipar cada uma de minhas vontades e satisfazê-las de imediato.

E eu, resignado, aceitarei.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Novo Testamento

Eu corria pela estrada de terra quase virando barro. Eu e a estrada. Meus pés limpos na lama, o dia quente, a chuva forte tentando furar minha pele. Meus braços contentes, o peito arfando, os pastos, as árvores, a vaca mocha que ainda tentava entender o que era aquele paletó enroscado na cerca que era o limite de seu mundo.

Eu ria e as gotas escorriam pelo meu rosto como lágrimas de uma felicidade que sempre esteve ali. Ao meu alcance e que eu jamais pude ver, através da cerca que me limitava: o medo, o amparo, a felicidade, a culpa e o perdão, todos os meus arames farpados.

Eu corria e deixava para trás tudo aquilo. O que ganhei, o que comprei, o que pedi. O que roubei. Os frutos de meu trabalho, de meu ventre, de minha sorte ou maldade. Deixava tudo: o escritório, a camisa, as calças, a vergonha.

Corria nu. O pudor eu tinha jogado junto com a pasta de documentos, assim que terminei de ler o testamento. Tudo que eu via agora era meu: a estrada, as vacas, as cercas, a vergonha, o mundo todo.

E Deus tinha assinado embaixo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Sua casa e seu navio

E atrás da última porta só pode estar o monstro.

Ele é belo, mas destrói todos os sonhos em que toca. Vai mudar seu passado, perverter tudo de bom que já lhe aconteceu. Poderia matá-lo ainda bebê, mas prefere que você passe por cada tormento, cada humilhação: a espinha no dia do baile e as traições de todos que amar.

E em frente à última porta fica o medo do monstro, como um vigia.

O medo do monstro que o persegue desde criança. Que o fez hesitar em todos os seus fracassos e perder todas as oportunidades da sua vida. O medo que você carrega nos ombros como um mundo.

O medo que é sua casa e seu navio.

Quando você chegar à última porta, você olhará para trás, mas o caminho não estará lá. Nunca esteve. Você vai se perder antes de chegar. Vai perder tudo.

O caminho que leva à última porta é papel e se desfaz sob seus passos molhados.

Quando você chegar à última porta, abrir ou não abrir será irrelevante. Você verá o vigia e ele não se importará com sua presença, talvez até o convide a experimentar a maçaneta. Quando você chegar à última porta, você estará do outro lado dela.

Você será belo, mas vai destruir todos os sonhos em que tocar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 8

Usando suas habilidades ninja-mutante-tartaruga-etc, Tiago rapidamente prendeu Morgana Bruna em sua própria teia de mentiras e aço inoxidável coberto com passas ao rum. Sem nem mudar de parágrafo, desarmou os bandidos todos e libertou seus amigos. Que, aliás, não eram seus amigos coisa nenhuma. Zoroástrea aplicou-lhe uma cabelada de loira de esquerda que o derrubou ao mesmo tempo em que o mantinha imobilizado.

- Mas Zorô, eu não entendo. Por que você fez isso? Eu sou praticamente seu pai, e você nunca fez a linha Édipo-power-retrô.

- Nada disso, seu vilipendioso monte de ego e músculos e beleza estonteante! Você sabe muito bem o que me fez: você roubou meu penhoar e, isso, eu não posso perdoar.

- Penhoar? Que penhoar, minha pequena Zoroástrea das montanhas escaldantes?

Ela se referia, é claro, ao penhoar do título. Desde a morte de sua mãe, Ronalda Raimunda, feia de cara e boa de bola, ela esperava a oportunidade de brilhar na túnica que tanto atormentou sua infância e que ainda povoava seus sonhos, como um ícone de tudo que nunca poderia ter. E ela sabia que sua herança havia sido negada por seu criador.

- Minha Zorozinha... Era só um título de efeito. Nunca existiu penhoar nenhum - suplicava Tiago, com o pouco fôlego que ainda lhe restava, já entorpecido pela nuvem de laquê que emanava das madeixas loiras.

Não. Ela sabia que o penhoar existia. Ela se lembrava de cada dobra daquela seda suave, dos movimentos do tecido enquanto sua mãe corria pelos campos de papoulas, nua sob as estampas do Frajola enfrentando o Fofão. E ela precisava tê-lo.

- Zorô... me perdoe... O penhoar... o penhoar está... - disse Tiago, e deu seu último suspiro.

Zoroástrea, sem hesitar um só momento, comeu o suspiro, que estava já um pouco murcho, e aproximou-se de seu criador, para ouvir com atenção suas derradeiras palavras.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Ouvi seus passos

Quase acordando, ouvi seus passos:
uma alegria quente e líquida que me sufocava.

A brisa lenta da manhã trazia seu perfume de flor de tudo,
meus lábios dançavam naquele perfume e meus pulmões sorriam.

A pele salivava esperando seu toque,
minhas mãos procurando o lado esquerdo de sua alma.

Quase sorri,
mas acordei para o vazio fúnebre desse quarto que não tem mais cores.