segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 7

Guinevere finalmente abaixou o capuz e mostrou seu rosto: ela era, na verdade, sua irmã gêmea malvada, Morgana Bruna, bruxa má e freira carmelita do oeste. Ninguém percebeu, claro, elas eram idênticas. Mas ela podia provar, tinha o selo do Inmetro. Todos pediram que não mostrasse, podia ter criança lendo a história, e resolveram acreditar em sua palavra.

Seus capangas mal-encarados genéricos invadiram a sala e rapidamente prenderam Zoroástrea, Óbvio e José Manuel, além de uma velhinha que passava na rua e entrou pedindo um pão branquinho e um litro de leite.

Morgana abriu um sorriso de expectativa: finalmente, após todos aqueles meses de treino, iria poder usar sua risada de vilã malvadona! Estava tão empolgada que mal conseguia falar quando começou a explicar seu plano diabólico: trancou a irmã na casa de seu coelho de estimação e se infiltrou naquele grupinho de tietes inúteis para que pudesse prender Zoroástrea e, finalmente, conseguir sua vingança pelas bolinhas de gude que ela havia lhe roubado no acampamento de férias do ano anterior.

E explicou como a torturaria: iria prender Zoroástrea em uma gaiola com fundo de chocolate, sobre um vagão de montanha russa, cercada de gordinhos esfomeados. Quando eles terminassem de comer o chão da gaiola, ela cairia e seria presa pelo vagão, que seria ligado automaticamente e a levaria para uma sala escura onde dois ferrets treinados iriam lamber seus pés sem parar, enquanto o CD dos grandes sucessos de Amado Batista se repetiria no último volume. E soltou sua risada, com perfeição. Todos ficaram atônitos.

O silêncio só foi quebrado pelo som de um jorro rápido e assustador vindo da sala fechada próxima à escada: alguém tinha apertado a descarga. Ainda enxugando as mãos nas calças, Tiago Savio, herói secreto de uma galáxia distante e escritor de blog bobo, entrou na sala.

-Não se eu puder impedir, Morgana Bruna!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Profecia

Cheguei na porta do boteco com medo, mas joguei-o do lado de fora e a abri, como quem não tem mais nada a perder. Eu não tinha.

Ele iria me destruir. Estava escrito e ele queria. Deus, quase que eu queria àquelas alturas.

Entrei naquele espaço imundo e abafado, cheirando a cigarro e suor. Trouxe comigo um resto do frio da noite que sumiu antes de a porta fechar.

Ele estava exatamente onde eu o havia deixado.

Caído sobre a mesa, um envelope rasgado às pressas. Ao lado, um pedaço de papel: os resultados do exame, minha sentença de morte.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

God in a bottle

There is a bottle of Coke. Or there isn’t, I’m not sure.
All the stars in the universe are burning outside the bottle.
Liquid stars, gaseous stars. A really hot bottle would contain them.
Why is there no star but in a bottle of Coke?

There is a bottle of stars. Or there isn’t, I’m not sure.
It is actually a bright and hot bottle.
So hot it could be easily liquified and poured inside a bottle.
Why is there no liquid bottle but in a bottle of stars?

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 6

José Manuel Sampaio, administrador agrícola e zé mané, olhou com inveja para a amiga Guinevere dos Santos, rainha adúltera e freira marcelina. Ela estava lhe mostrando sua nova tatuagem: um dragão púrpura com o rosto de Zoroástrea, sob o qual estava escrito Lembrança de Aparecida do Norte.

Alguém batia na porta. Aliás, massacrava a coitada, e eles correram. Não chegaram a tempo: encontraram-na já no chão, nocauteada. No espaço onde ela deveria estar, a figura majestosa de Zoroástrea.

Parecia-lhes uma visão celestial, mas os querubins sentados em seus ombros eram na verdade os enchimentos dos peitos, que haviam se deslocado durante a contenda.

José Manuel rapidamente convidou-a a entrar e perguntou se aceitava um chá, bolinhos, doce de mamão selvagem ou qualquer outra coisa selvagem, enquanto fazia cara de fuinha se afogando no cio e abria o manto para mostrar sua sunguinha enfiada (aquela fantasia realmente era o ápice do design utilitário-überfashion).

Zoroástrea olhou-o um pouco nauseada, ajeitou os peitos no sutiã do Bob Esponja que usava, e aceitou um bolinho. Pegou da bolsa um MP3 Player e colocou pra tocar a fala que tinha gravado com as acusações todas que fez a Óbvio e depois a Teodoro. Estava um pouco rouca e precisava se cuidar. Fotografá-la nua, roubar os dentes da fada, as figurinhas do Amar é..., o pote de balas da tia Samantha, tudo aquilo.

Guinevere sentou-se, o capuz ainda escondendo seu rosto, e pediu-lhe que sentasse também.

O plano finalmente tinha funcionado, tinham conseguido atraí-la até ali. Agora bastava garantir que ela nunca mais saísse.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 5

Teodoro Fontoura, avenida e biotônico nas horas vagas, virou-se para desenroscar a capa, presa na roleta do metrô. Tinha cansado de insistir que deveriam usar algo mais simples, para evitar esse tipo de problema: paetês coloridos, fantasias de Teletubbies ou mesmo que voltassem para a melancia pendurada do uniforme antigo. Mas não. Pra ser uma seita secreta tinham que usar o manto com capuz e pompom, o aperto de mão em código morse e aquela maldita sunga enfiada. Claro.

Quando virou para frente, viu Zoroástrea entrando na estação. Não ligou, estava acostumado com esses delírios, via-a em toda parte, achava que qualquer mulher com mais de 1,90m que encontrava era ela. Esse delírio em particular tinha até a voz de Zoroástrea e, quando ele decidiu ignorá-lo, tinha também o famoso gancho de esquerda de Zoroástrea.

Aproveitou que já estava no chão e beijou seu pé. Ela ofereceu-lhe o outro, gostava do efeito da baba sobre o couro. Esfregou os coturnos em seu pompom para lustrá-los, enquanto Teodoro finalmente entendia a utilidade do acessório, e levantou o infeliz no ar, puxando-o pelo capuz (como era prática aquela fantasia). Exigiu, em gritos garrafais, que ele a levasse até os outros, que explicasse o motivo de tanta perseguição e que devolvesse seu álbum de figurinhas do Amar é...

Seguiram por ruas e becos estreitos, passagens secretas e pastelarias; andaram em círculos, em trapézios, em paralelogramos e anticonstitucionalismos. Depois voltaram tudo e entraram numa casa próxima à estação do metrô, onde se lia na porta: Adoradores de Zoroástrea. CPFL, favor bater no número 213-B.