Walter, eu acho que não é sinal de muita sanidade você ficar conversando consigo mesmo no espelho.
É, acho que você tem razão, Walter.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 4
Quando entrou, Óbvio não pôde acreditar no que viu. Sua deusa sentada na sala. A grande Zoroástrea Glamour ao lado de sua mesa de chá.
Quase chorou ao se aproximar, pensando em como sua vida estava agora completa, quão celestial era aquele dia, a singela manhã outonal. Abaixou-se para beijar a face esculpida pelos deuses: a gosma verde da jaca espalhada no rosto, misturando-se à base branca, à sombra azul, ao glitter violeta, ao batom carmim que já se confundia com o delineador verde e o blush rosa-queimado; não resistiu e lambeu-a.
Ficou encantado com a agilidade de sua reação: um soco e uma joelhada ao mesmo tempo, ambos direcionados a partes vitais de seu organismo. Enquanto rolava pelo chão, Óbvio pensava na precisão dos chutes que levava, na delicadeza das bordoadas daquelas mãos de princesa. Lágrimas brotavam de seus olhos, emocionados e já começando a inchar.
Zoroástrea o acusava de persegui-la, de fotografá-la nua enquanto fazia compras, de comer os restos de comida em seus pratos nos restaurantes, de roubar os dentes que deixava sob o travesseiro para a fada. Acusava-o e dizia que tinha provas, tinha encontrado a fita que ele roubara de Zoraide.
Ainda sangrando em êxtase, respondeu Óbvio que não era ele o culpado. Ele tinha sim roubado a fita, mas ela foi tomada pela seita dos Adoradores de Zoroástrea.
E seria uma honra levá-la até eles.
Quase chorou ao se aproximar, pensando em como sua vida estava agora completa, quão celestial era aquele dia, a singela manhã outonal. Abaixou-se para beijar a face esculpida pelos deuses: a gosma verde da jaca espalhada no rosto, misturando-se à base branca, à sombra azul, ao glitter violeta, ao batom carmim que já se confundia com o delineador verde e o blush rosa-queimado; não resistiu e lambeu-a.
Ficou encantado com a agilidade de sua reação: um soco e uma joelhada ao mesmo tempo, ambos direcionados a partes vitais de seu organismo. Enquanto rolava pelo chão, Óbvio pensava na precisão dos chutes que levava, na delicadeza das bordoadas daquelas mãos de princesa. Lágrimas brotavam de seus olhos, emocionados e já começando a inchar.
Zoroástrea o acusava de persegui-la, de fotografá-la nua enquanto fazia compras, de comer os restos de comida em seus pratos nos restaurantes, de roubar os dentes que deixava sob o travesseiro para a fada. Acusava-o e dizia que tinha provas, tinha encontrado a fita que ele roubara de Zoraide.
Ainda sangrando em êxtase, respondeu Óbvio que não era ele o culpado. Ele tinha sim roubado a fita, mas ela foi tomada pela seita dos Adoradores de Zoroástrea.
E seria uma honra levá-la até eles.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Volta
Ela vai. Sem luzes ou sombras, funerais ou balões. Vai dar as costas e sair, assim, um passo e depois outro. Deixa lembranças e beijos, cartões e um ou dois ressentimentos.
O mármore de seus pés vai desprender algum pó, que talvez continue aqui por muito tempo, infiltrado entre as frestas, os dedos ou entre minhas idéias e fantasias.
Os seus desejos, líquidos, por outro lado, jamais se misturarão a nada. Permanecerão contidos para sempre e irão embora com ela: seus jarros, copos e conta-gotas.
Vai vestida em flores, em sol quente e tarde febril. Suas espadas fora das bainhas, suas flechas na aljava. Ela estará com as armas em punho, como sempre esteve. Seus olhos, sorrisos, sua paixão inocente, em punho. Ela estará pronta para outra guerra.
Eu estarei aqui, caído. Esperando o fim ou, quem sabe com sorte, sua volta.
O mármore de seus pés vai desprender algum pó, que talvez continue aqui por muito tempo, infiltrado entre as frestas, os dedos ou entre minhas idéias e fantasias.
Os seus desejos, líquidos, por outro lado, jamais se misturarão a nada. Permanecerão contidos para sempre e irão embora com ela: seus jarros, copos e conta-gotas.
Vai vestida em flores, em sol quente e tarde febril. Suas espadas fora das bainhas, suas flechas na aljava. Ela estará com as armas em punho, como sempre esteve. Seus olhos, sorrisos, sua paixão inocente, em punho. Ela estará pronta para outra guerra.
Eu estarei aqui, caído. Esperando o fim ou, quem sabe com sorte, sua volta.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 3
O culpado era óbvio. Óbvio Teotônio Zardella, seu ex-amante cleptomaníaco e sem grandes surpresas. A última vez em que se viram foi no dia em que a fita sumiu. E ele era um fã ardoroso de Zoroástrea: tinha todos os filmes, os CDs, as bonecas articuladas e as infláveis, o jogo de panelinhas da titia Zorô. Zoraide anotou seu telefone e endereço, além de suas posições preferidas e algo incompreensível envolvendo um cassetete e o último CD do Zeca Baleiro, caso fosse necessário.
Zoroástrea partiu ao amanhecer: ao meio, os pedaços de seu rosto ficaram espalhados sobre o travesseiro. Refez a maquiagem e foi embora.
Após muitas horas de procura e algumas voltas pela cidade, finalmente encontrou o endereço. Estava em seu bolso, escrito em um papel dobrado. Seguiu para lá.
Quem atendeu a porta foi Ranulfo Pimentel, colega de quarto de Óbvio e coadjuvante chato do Mickey. Reconheceu imediatamente a grande diva e convidou-a a entrar, dar três pulinhos num pé só e comer uma jaca. Ele deveria chegar a qualquer momento. Qualquer momento da história da humanidade, claro. Mas ela não tinha pressa: a vida é longa, a jaca é doce e o amor é um pássaro cego que lê rotas de vôo em braile. Sentaram e se lambuzaram.
Zoroástrea partiu ao amanhecer: ao meio, os pedaços de seu rosto ficaram espalhados sobre o travesseiro. Refez a maquiagem e foi embora.
Após muitas horas de procura e algumas voltas pela cidade, finalmente encontrou o endereço. Estava em seu bolso, escrito em um papel dobrado. Seguiu para lá.
Quem atendeu a porta foi Ranulfo Pimentel, colega de quarto de Óbvio e coadjuvante chato do Mickey. Reconheceu imediatamente a grande diva e convidou-a a entrar, dar três pulinhos num pé só e comer uma jaca. Ele deveria chegar a qualquer momento. Qualquer momento da história da humanidade, claro. Mas ela não tinha pressa: a vida é longa, a jaca é doce e o amor é um pássaro cego que lê rotas de vôo em braile. Sentaram e se lambuzaram.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Superego blog
Que viadagem é essa de ficar escrevendo diariozinho na internet? Pensando o quê? Não tem o que fazer, vai arrumar um caminhão de peroba pra descarregar!
A gente aqui, se matando de trabalhar, e esse aí fica lá, escrevendo piadinha pros amiguinhos lerem. Vagabundo!
A gente aqui, se matando de trabalhar, e esse aí fica lá, escrevendo piadinha pros amiguinhos lerem. Vagabundo!
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Meu penhoar será sua herança: a vida e outros penduricalhos de Zoroástrea Glamour - capítulo 2
Zoraide Spanlkopatos, a célebre criadora de lagartixas de barriga amarela, alcançou a porta em segundos. Foi fácil: apesar de rápida, a porta geralmente corria em círculos, burra que era. Assim que segurou a maçaneta, soube o que a esperava do outro lado, depois de tanto tempo. Respirou fundo, ajeitou a sombrancelha esquerda, fez treze polichinelos e vinte flexões de braço e abriu.
O ar frio da noite gelou o suor em seu peito, mas foram os olhos de Zoroástrea que congelaram seu coração. Mais precisamente, os imensos cílios, que criavam uma pequena massa de ar polar cada vez que eram abanados. Convidou-a a entrar e pediu que esperasse enquanto colocava o coração no microondas por 2 minutos e dezessete segundos, na potência média.
Zoroástrea entrou, assustada com a decoração da sala de estar. De não estar pelamordedeus, no caso.
Com dois dedos em pinça e uma certa cara de nojo, afastou a toalhinha de crochê que estava sobre o braço da poltrona e sentou-se. Os gatos de louça, o rosa e o amarelo, continuavam sobre a estante, ao lado do galo, azul num dia úmido. As flores de plástico na mesinha de centro eram as mesmas: um antúrio e algumas margaridas sujas, além da folhagem, que lembrava uma samambaia fantasiada de mendiga, pronta pro carnaval. Ela já estava se levantando para esbarrar sem querer no relógio de parede com sons de passarinhos, quando sua anfitriã entrou com um suspiro, alguns quindins e duas taças de Chapinha Espumante Prosecco Premium.
Beberam e relembraram os bons tempos. Aqueles em que estiveram separadas, é claro. O tempo de casados tinha sido um inferno.
Já no final da madrugada, no quarto, após horas selvagens e descontroladas de dicas de maquiagem e decoração, Zoroástrea finalmente contou que veio porque precisava de ajuda: um de seus fãs a estava perseguindo desde a estréia de seu último filme e a única pista que tinha era uma antiga fita cassete que ele só poderia ter roubado de Zoraide.
O ar frio da noite gelou o suor em seu peito, mas foram os olhos de Zoroástrea que congelaram seu coração. Mais precisamente, os imensos cílios, que criavam uma pequena massa de ar polar cada vez que eram abanados. Convidou-a a entrar e pediu que esperasse enquanto colocava o coração no microondas por 2 minutos e dezessete segundos, na potência média.
Zoroástrea entrou, assustada com a decoração da sala de estar. De não estar pelamordedeus, no caso.
Com dois dedos em pinça e uma certa cara de nojo, afastou a toalhinha de crochê que estava sobre o braço da poltrona e sentou-se. Os gatos de louça, o rosa e o amarelo, continuavam sobre a estante, ao lado do galo, azul num dia úmido. As flores de plástico na mesinha de centro eram as mesmas: um antúrio e algumas margaridas sujas, além da folhagem, que lembrava uma samambaia fantasiada de mendiga, pronta pro carnaval. Ela já estava se levantando para esbarrar sem querer no relógio de parede com sons de passarinhos, quando sua anfitriã entrou com um suspiro, alguns quindins e duas taças de Chapinha Espumante Prosecco Premium.
Beberam e relembraram os bons tempos. Aqueles em que estiveram separadas, é claro. O tempo de casados tinha sido um inferno.
Já no final da madrugada, no quarto, após horas selvagens e descontroladas de dicas de maquiagem e decoração, Zoroástrea finalmente contou que veio porque precisava de ajuda: um de seus fãs a estava perseguindo desde a estréia de seu último filme e a única pista que tinha era uma antiga fita cassete que ele só poderia ter roubado de Zoraide.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Purgatório
Quando me virei para frente, percebi que mais da metade das pessoas tinha ido embora. Pensei em ir também, mas não podia abandonar minha própria palestra. Continuei falando enquanto todos saíam e a sala ficava às moscas.
Assim que a última delas se levantou, quase me calei, mas percebi duas velhinhas no fundo da sala, constrangidas demais para deixarem-me ali.
E eu não podia parar. Continuei, enquanto as duas esperavam que a palestra mais chata de todos os tempos terminasse.
Ela jamais terminaria.
Assim que a última delas se levantou, quase me calei, mas percebi duas velhinhas no fundo da sala, constrangidas demais para deixarem-me ali.
E eu não podia parar. Continuei, enquanto as duas esperavam que a palestra mais chata de todos os tempos terminasse.
Ela jamais terminaria.
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