quinta-feira, 4 de novembro de 2010

João, que perdeu seu coração

Meu coração às vezes tá na minha boca e às vezes nos seus pés.
Umas vezes meu coração parece que tá no inferno e outras parece que tá na Bahia.
Meu coração às vezes pula, depois rola e se finge de morto.
Às vezes ele até explode, mas nada disso te traz de volta e ele desiste...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pudim light de elefante com maçãs

• 2 latas de leite condensado
• 3 ovos
• 1 colher e meia de margarina light
• 2 meninos correndo atrás da bola
• 400 ml de lembranças tristes
• 1 copo e meio de leite
• 4 maçãs (podem ser substituídas por 2 Brancas de Neve)
• 1 elefante graúdo

Modo de fazer:
1. bata os ovos com o leite condensado e vá adicionando lentamente as lembranças tristes, até que elas desapareçam por completo na mistura e que você nem saiba mais sobre o que se tratava. Reserve;
2. dê as maças aos meninos, duas para cada um. Caso decida substituí-las palas Brancas de Neve, não se esqueça de fornecer preservativos. Assim que eles esquecerem das bolas que perseguiam, junte-as suavemente ao leite e à margarina light;
3. coloque numa forma untada a primeira mistura, o elefante, e por fim, a segunda;
4. leve ao forno pré aquecido por cerca de 1 hora.
Sirva quente.

sábado, 17 de outubro de 2009

A Luz dos Olhos Teus

Ela fitou friamente seus olhos e disse: conjuntivite. Receitou uma pomada e uns dias de repouso. Não, não ali em sua sala. E muito menos em sua cama, ela nem o conhecia, Você poderia se retirar, por favor?

Ele não podia. Não enxergava um palmo à frente de seu nariz, com aquele inchaço todo. Tentou se levantar, mas trombou com o Palmo, que estava realmente próximo de seu rosto. A médica levou-o até a sala de espera.

Jonas não era um rebelde, mas mesmo estando ali não poderia esperar, era o último dia para comprar ingressos para o show de sua deusa: “Zoroástrea Glamour em única apresentação ao vivo e aos outros dois espectadores”. Tinha que correr.

Pediu um táxi e uns rolinhos primavera. Chegaram frios. A recepcionista ajudou-o a subir no carro. O taxista reclamou que poderia amassar o teto, fez com que descesse e colocou-o para dentro.

Ele deu o endereço, mas o motorista recusou-se a ir a um lugar daqueles. Era um táxi de família e não topava aquele tipo de perversão. Saiu.

Sua visão estava começando a melhorar e decidiu pegar um ônibus. A linha Lapa-Cracatoa? Passa aqui sim, meu filho. Pode deixar que eu aviso quando chegar, disse a velhinha pegando em seu braço e em muitos outros lugares que ele não entendeu direito.

Entrou no ônibus e perguntou se aquele carro iria até seu destino. O motorista pegou um baralho do bolso da calça, tirou três cartas e as colocou à sua frente. Sim, aquele era seu destino.

Logo o cobrador avisou que tinham chegado a seu ponto. Ele pediu para chamar novamente quando passassem por sua vírgula, e desceu ali. Sabia que o boteco onde seria o show era perto.

Perto numa escala cósmica, no caso. Foi apalpando seu caminho e perguntou a vários vultos que passavam, mas as indicações eram contraditórias: é logo ali, vire à direita, à esquerda, suba no poste, dê dois pulinhos num pé só, vai pro inferno. Não, isso estava errado, a apresentação no inferno tinha sido na semana anterior.

Por fim, encontrou uma alma caridosa que o levou até a bilheteria e assombrou-o só um pouco, generosamente. Pediu dois ingressos.

– Bem passados, por favor – e voltou caminhando para casa.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Quando fui premiado pelo conjunto de minha obra

Eram sirenes, tambores, trompetes. Eram janelas que batiam e portas que fechavam. Eram trovões e corações em disparada. Passos e pontapés, chutes e traições. Era demência e covardia.

Ouvi tiros, respingos, sussurros. Ouvi gritos e maldições. Juras de morte, preces, ouvi gemidos e clamores por um fim rápido e menos doloroso.

E estava cada vez mais próximo.

Eles procuravam o autor da história do rapaz da lanchonete, o pai da Zoroástrea e do monstro atrás da porta. Pretendiam me destruir, apagar o que escrevi, queimar minhas memórias e expor o meu cadáver.

Meus livros seriam torturados, meus contos açoitados, minhas palavras amordaçadas, minhas letras estranguladas.

Tentei fingir que era uma metáfora, tentei elipsar-me, mentir, desdizer, por fim corri. A multidão vinha e eu seria desfeito, não há perdão para quem contou tudo, sentiu o que não devia, falou o que ninguém poderia saber. Os erros de lógica, de métrica, de ritmo. O cinismo, a inverossimilhança, os clichês, a pretensão: não há clemência para quem é diferente de todos nós.

E eles me alcançaram.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A melhor noite de sua vida

Vou dormir essa noite em sua cama. Sei que você não quer, mas não me importo. Já tive muitas companhias que não me desejavam. Eu gosto.

Talvez até prefira assim.

Tocarei a campainha. Você vai me ver pelo olho mágico e decidir não abrir. Mas a porta será aberta por suas mãos. Você ainda poderia tentar fechá-la, mas não vai. Você sabe disso.

Quando eu tomá-la em meus braços, você vai lutar como se fosse por sua vida. Eu não insistirei, vou soltá-la e virar as costas. Vou esperar que implore pelo meu olhar. Dependendo do meu humor, posso lhe dar um sorriso ou algum outro regalo, só para que se lembre o quanto precisa de cada migalha do que lhe jogo.

Ou vou cuspir em seu rosto, não sei.

Vou prometer amá-la por toda sua vida. Vou dizer que mudei - ou que vou mudar, não importa. Vou repetir todas as mentiras de sempre. E você vai acreditar, mesmo sabendo que eu a odeio e quero que você morra.

Depois vou chutá-la para um canto e mandar que suma para sempre. Mas você não vai: vai lamber meus pés e pedir um afago, enquanto se prepara para os tapas que virão.

Quando nos deitarmos, você estará quebrada. Sem desejo que não sejam os meus. Você não terá dignidade ou razão. Vai antecipar cada uma de minhas vontades e satisfazê-las de imediato.

E eu, resignada, aceitarei.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Novo Testamento

Eu corria pela estrada de terra quase virando barro. Eu e a estrada. Meus pés limpos na lama, o dia quente, a chuva forte tentando furar minha pele. Meus braços contentes, o peito arfando, os pastos, as árvores, a vaca mocha que ainda tentava entender o que era aquele paletó enroscado na cerca que era o limite de seu mundo.

Eu ria e as gotas escorriam pelo meu rosto como lágrimas de uma felicidade que sempre esteve ali. Ao meu alcance e que eu jamais pude ver, através da cerca que me limitava: o medo, o amparo, a felicidade, a culpa e o perdão, todos os meus arames farpados.

Eu corria e deixava para trás tudo aquilo. O que ganhei, o que comprei, o que pedi. O que roubei. Os frutos de meu trabalho, de meu ventre, de minha sorte ou maldade. Deixava tudo: o escritório, a camisa, as calças, a vergonha.

Corria nu. O pudor eu tinha jogado junto com a pasta de documentos, assim que terminei de ler o testamento. Tudo que eu via agora era meu: a estrada, as vacas, as cercas, a vergonha, o mundo todo.

E Deus tinha assinado embaixo.