segunda-feira, 9 de março de 2009

Novo Testamento

Eu corria pela estrada de terra quase virando barro. Eu e a estrada. Meus pés limpos na lama, o dia quente, a chuva forte tentando furar minha pele. Meus braços contentes, o peito arfando, os pastos, as árvores, a vaca mocha que ainda tentava entender o que era aquele paletó enroscado na cerca que era o limite de seu mundo.

Eu ria e as gotas escorriam pelo meu rosto como lágrimas de uma felicidade que sempre esteve ali. Ao meu alcance e que eu jamais pude ver, através da cerca que me limitava: o medo, o amparo, a felicidade, a culpa e o perdão, todos os meus arames farpados.

Eu corria e deixava para trás tudo aquilo. O que ganhei, o que comprei, o que pedi. O que roubei. Os frutos de meu trabalho, de meu ventre, de minha sorte ou maldade. Deixava tudo: o escritório, a camisa, as calças, a vergonha.

Corria nu. O pudor eu tinha jogado junto com a pasta de documentos, assim que terminei de ler o testamento. Tudo que eu via agora era meu: a estrada, as vacas, as cercas, a vergonha, o mundo todo.

E Deus tinha assinado embaixo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Sua casa e seu navio

E atrás da última porta só pode estar o monstro.

Ele é belo, mas destrói todos os sonhos em que toca. Vai mudar seu passado, perverter tudo de bom que já lhe aconteceu. Poderia matá-lo ainda bebê, mas prefere que você passe por cada tormento, cada humilhação: a espinha no dia do baile e as traições de todos que amar.

E em frente à última porta fica o medo do monstro, como um vigia.

O medo do monstro que o persegue desde criança. Que o fez hesitar em todos os seus fracassos e perder todas as oportunidades da sua vida. O medo que você carrega nos ombros como um mundo.

O medo que é sua casa e seu navio.

Quando você chegar à última porta, você olhará para trás, mas o caminho não estará lá. Nunca esteve. Você vai se perder antes de chegar. Vai perder tudo.

O caminho que leva à última porta é papel e se desfaz sob seus passos molhados.

Quando você chegar à última porta, abrir ou não abrir será irrelevante. Você verá o vigia e ele não se importará com sua presença, talvez até o convide a experimentar a maçaneta. Quando você chegar à última porta, você estará do outro lado dela.

Você será belo, mas vai destruir todos os sonhos em que tocar.